Um Encontro Feliz

(TEATRO/CRÍTICA (18/3/2008)Caderno 3 - Diário do Nordeste)


Em cartaz no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, “En Passant” afirma a potência da escrita de Rafael Martins

Teatro vive do efêmero. No palco, nascimento e morte praticamente se alinham. Talvez por isso, todo e qualquer desejo (ou esforço) de manutenção de uma criação ou de um evento teatral seja tão sofrido. Por mais que se relute, é fundamental ter consciência de que, em cena, se está sempre jogando contra o tempo. “En Passant”, espetáculo de autoria de Rafael Martins e direção de Jadeilson Feitosa, cartaz de sábados e domingos de março no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, se apoia na noção de transitório e faz dela seu trunfo maior.

Com uma encenação mais voltada para a percepção sensorial, a peça caiu nas graças do público em sua temporada de estréia. No elenco, o mesmo Jadeilson Feitosa e uma surpreendente Milena Pitombeira convidam a experimentar a fluidez das relações e das emoções em meio às pressões da contemporaneidade. Enredo simples, no qual se sustenta uma espécie de revisão do fazer teatral. A espontaneidade e vitalidade interpretativa dos atores conduz o olhar da platéia por um questionamento dos limites do ato teatral enquanto resultado de um processo complexo de composição. Sugerindo uma reflexão existencial, “En Passant” denuncia, sim, um teatro à deriva.

Embora não se configure como um projeto de grupo, “En Passant” reverbera enquanto experiência coletiva, sobretudo quando se percebe que os artistas envolvidos em sua realização têm suas carreiras afetadas decisivamente pelo trabalho educativo-formativo da professora-atriz Nazaré Fontenele nas salas de aula do Colégio Christus. Mais que amigos, Rafael Martins, Jadeilson Feitosa e Milena Pitombeira são contemporâneos de uma geração para qual a decisão e o ato de fazer teatro implicam diretamente num questionar constante. Perguntando desenfreadamente — como os tipos criados por Martins para “En Passant” — o teatro se afirma como dúvida e abre máo da tentativa, vã, de arremate.

Revisão e criação

Enquanto texto, “En Passant” já realça sua pretensão de revisão. Rafael Martins não promove um encadeamento de ações que requeira uma compreensão narrativa lógica. Seus personagens, tampouco, carecem de um entendimento minucioso. Eles apenas são, sem necessariamente solicitar que se procure justificar suas essências em episódios de seus passados. Se é que eles o têm. “En Passant”, no entanto, não bebe nas idéias do afamado “teatro do absurdo”. Está para além dos formatos estabelecidos. Como espetáculo, Jadeilson Feitosa acerta no tom ora melancólico ora ingênuo com que fez os tipos migrar das linhas às cenas. Ele, também ator, e Milena Pitombeira enfrentam com muita precisão a espécie de jogo de adivinhação criado por Martins. A dramaturgia ganha vida numa performance simples e provocativa, que aguça o olhar do público para a interface entre o palco e a vida.

ENTREVISTA

RAFAEL MARTINS (Dramaturgo)

´A gente queria romper com os limites estabelecidos do teatro´

Em que medida “En Passant” dialoga com outras dramaturgias do seu repertório? A estrutura dramatúrgica centrada em dois personagens e título em francês é mera coincidência com “Déjà vu”?

De certa maneira, sim. O título foi a última coisa que escolhemos. Mesmo assim, há um diálogo com tudo o que fiz. Essa peça nasceu de um processo meu de revisão. Revisão como artista e como pessoa.

Embora fundador do Grupo Bagaceira de Teatro, para o qual tem escrito constantemente, “En Passant” é mais um projeto seu fora da companhia. Muda alguma coisa produzir fora da lógica de grupo?

Muda. Muda porque você está construindo uma nova estrutura de trabalho. Uma nova estrutura inclusive estética. Mesmo assim, o trabalho com elenco independente não deixa de funcionar como grupo. Teatro é uma experiência coletiva, acredito muito nisso. Além do mais, o Bagaceira é um parceiro constante. O figurino do “En Passant”, por exemplo, foi feito pelo Yuri Yamamoto.

Como o seu processo de escrita é afetado pelo processo de montagem? “En Passant” existe para além da iluminação ou do figurino?

Não. Existe justamente a partir do encontro. Meu diferencial como dramaturgo está na minha disposição ao trabalho em conjunto. Mudo o texto constantemente a partir do elenco.

“En Passant” promove uma espécie de desnudamento do evento teatral. Muitas vezes, a ilusão do palco é rompida. Qual a motivação disso?

A idéia de “En Passant” era ousar para chegar mais longe no diálogo com o público. A gente queria romper com os limites estabelecidos do teatro para romper com os limites da vida.

Magela Lima
Repórter

REFERÊNCIAS:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=520964