EN PASSANT por Daniel Dias


Teatro e Cia:
Uma página dedicada ao Teatro, à arte dos palcos, mas, também, a todas as demais artes a ela vinculadas... Uma página idealizada e mantida por alguém que vive dessa arte e, como um ator no palco, precisa do espectador e da participação da platéia para completar-se!

Daniel Dias da Silva



EN PASSANT 07/04/0




REFERÊNCIAS http://www.fotolog.com.br/teatroecia/33482963
O Brasil é um país de dimensões hiperbólicas, isso é inegável. Mas as distâncias que nos separam é um argumento tão batido, bolorento e frágil, como aquele que diz que o teatro vive “uma crise de idéias” – como se não fosse essa tal crise, justamente, a mola que transforma a inquietação do artista em uma obra de arte.

Por isso, é muito salutar descobrir que existe Teatro – com “T” maiúsculo – longe dos holofotes da mídia e dos vícios televisivos. E como existe!

“EN PASSANT” chega com título estrangeiro, mas com sotaque cearense e é um adorável exemplo de como a inquietação de um, unida à obstinação do outro e a disponibilidade de todos, pode resultar num trabalho consistente e sensível.

Dois seres – um homem e uma mulher –, desconhecidos que se encontram casualmente (existirá o acaso?), no meio da noite, sob a luz melancólica de um poste e junto a dois balanços. Iniciam um diálogo entrecortado de momentos de silêncio, permeado de questionamentos, melancolia e incertezas, do tipo que causam rebuliço na alma. As noites se seguem e eles já não conseguem deixar de se encontrar, uma força interior os leva ao encontro um do outro.

A peça nos remete em alguns momentos, na sua construção fragmentada, a Ionesco. Em outros momentos os personagens parecem saídos dos contos sombrios e pulsantes de Caio Fernando Abreu.

Mas essa é apenas uma forma de ler “EN PASSANT”, pois o texto de Rafael Martins é um prato cheio para os que saboreiam as entrelinhas e nenhum chão é completamente firme nessa história. As personagens não têm nome e nem construção psicológica definida, sua matéria-prima são os sentimentos. Eles representam o vazio, desejos, sonhos, dúvidas, dores, incertezas... E tudo isso poderia resvalar facilmente para a pieguice ou para a super-interpretação, não fosse a cuidadosa direção de Jadeilson Feitosa (que também acumula a função de ator, ao lado de Milena Pitombeira).

“EN PASSANT” não é poético, é poesia. E encontra no cenário e nos figurinos de Yuri Yamamoto um apoio fundamental para a sua composição, aliando-se de tal forma à linguagem do texto e à delicadez da direção, que fica impossível imaginá-los um sem o outro, tal qual os personagens.

“EN PASSANT” significa “de passagem”, em francês, ou seja, algo apanhado na brevidade de um momento. É também o nome de um passe do jogo de xadrez, quando o peão é capturado em seu primeiro movimento. E é assim que o espectador se sente no espetáculo, capturado na sua insistente e vã tentativa de compreensão racional. E se vê, repentinamente, tocado e emocionado, sem saber bem o porquê.

Tudo leva a crer que o espetáculo é apenas um esboço de um caminho ainda mais longo a ser percorrido pelo grupo. Um esboço que já deu mostras de sua qualidade, como um estudo de um grande pintor: por si só já encanta os sentidos, mas apenas antecipa algo mais complexo – se nada interromper essa busca. E que trabalhos como esse, possam romper as fronteiras culturais e sociais (que nos separam mais que as geográficas) e comunicar-se com um público maior, multiplicando o alcance e as possibilidades de leitura da peça, que são infinitas.