
(10/9/2009 - Caderno 3 - Diário do Nordeste)
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Hoje é dia de Ceará na Mostra Nordeste. A Cia Vão apresenta o espetáculo "En Passant", peça que nasceu da colaboração entre integrantes dos grupos Bagaceira, Em Cena e Ouse
O Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga continua em pleno vapor durante a semana. As ruas não estão mais cheias como no feriadão e o burburinho e o barulho dão lugar à calmaria de uma cidade pequena. O público é menor, mas as dimensões e a mítica em torno do festival são grandes. O evento não pára.
Muita água já rolou por debaixo das cortinas e dos palcos que sustentam o FNT. Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco já se apresentaram na Mostra Nordeste, montando uma pequena colcha de retalhos da produção nordestina atual. Bertolt Bretch e o sertão. A mistura de gêneros na condução de um pesadelo influenciado pela leitura de Guimarães Rosa e seu "Grande Sertão Veredas". Um Hamlet nu e ressuscitado em uma cova. A plástica dos clowns aliado a um visual expressionista.
Nesse cenário, o Ceará, claro, também tem vez. Este ano, a principal mostra do FNT traz na programação dois grupos cearenses. Na última terça, o Expressões Humanas e Teatro Vitrine esteve pela quarta vez no evento, agora com o espetáculo "Encantrago Ver de Rosa um Ser-Tão". O cenário é o sertão e a temática é o folclore. A encenação quebra com as barreiras e o distanciamento entre público e palco. A iluminação remete ao amarelo do sertão, e a música e a cantoria são elementos essenciais para a proposta do espetáculo. Mas isso foi terça-feira.
Quem sobe aos palcos hoje é a Cia Vão, que se apresenta pela primeira vez no FNT com o espetáculo "En Passant". Mas apesar da Cia Vão ser novata no evento, seus integrantes já conhecem o festival de longa data. Explica-se: a companhia é formada por pessoas que já participam de outros grupos teatrais. Estar em Guaramiranga respirando teatro não é nenhuma novidade para eles.
Mas se Rafael Martins, Jadeilson Feitosa e Milena Pitombeira, entre outros integrantes da Cia Vão, já estão acostumados ao clima da serra, e o espetáculo "En Passant" teve sua primeira apresentação em 2007, estar dentro da Mostra Nordeste do FNT traz um gosto diferente. Ainda mais porque "En Passant" é cria da Cia Vão, que existe oficialmente há pouco mais de um mês, e traz poucos elementos dos outros grupos dos integrantes: Bagaceira, Ouse e Em Cena, por exemplo.
"´En Passant´ surgiu quando Rafael disse que queria escrever um texto para eu dirigir", conta Jadeilson Feitosa, diretor e ator da peça. "Já eu queria atuar", continua. Desse interesse mútuo, "En Passant" viu a luz do dia com a proposta de trazer elementos diferentes dos outros grupos dos integrantes. "É um texto completamente diferente do que fizemos antes e reflete um momento de desconforto e questionamento em relação à arte", afirma Jadeilson.
Com "En Passant", a Cia Vão queria não estar presa a nenhuma corrente, pensamento ou estética teatral. "Um desafio para o autor, para a direção e para os atores", confessa o diretor e ator. "Eu queria trabalhar uma outra textura de interpretação, que fugisse do espetáculo físico. Fizemos também uma peça fragmentada em quadros, sem um começo, meio e fim definidos. É uma peça cheia de reticências, com mais perguntas do que respostas".
De acordo com Jadeilson, a idéia era fazer um espetáculo mais sensorial no qual cada pessoa tivesse a própria leitura. "É um texto atípico ao Rafael Martins. A pauta é mais a sensação do que a informação e o que está sendo dito", reflete Jadeilson. "Cortamos muitas informações que não precisavam ser verbalizadas e a fala existe para melhorar o silêncio", filosofa. "A preocupação não é a construção de imagens".
Em "En Passant", o cenário é um banco de praça onde um homem e uma mulher se conhecem. Ele e ela não tem nomes ou referências: idade, classe social, religião, profissão etc. O tema é a dor e o vazio existencial. "É uma peça existencialista, mas nem por isso intangível", avisa Jadeilson. Lidando com questões como o passar do tempo, "En Passant" dá continuidade à Mostra Nordeste e ao espetáculo maior do FNT.
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REFERÊNCIA:http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=669515