O Prazer do Desconforto

VIDA & ARTE VIU (07/04/2008)

Tércia Montenegroespecial para O POVO

A escritora Tércia Montenegro fala dos sentimentos que envolvem o expectador que se depara com a peça En Passant que está em cartaz no Teatro Sesc Emiliano Queiroz




Não, não se trata de uma apreciação do masoquismo, muito pelo contrário. Desconforto aqui é uma condição psicológica, o primeiro requisito para os questionamentos, as reflexões. Todo conformismo é confortável, passivo e sempre pouco criativo. Mas as ousadias são incômodas e, quando tecidas com talento, prazerosas.

Ousada é a peça En Passant, com o texto de Rafael Martins, que atinge o poético sem deixar de ser espontâneo na dramaturgia. Os dois atores, Jadeilson Feitosa e Milena Pitombeira, marcam os diálogos - reticentes e cíclicos - por fragmentos de riso, choro ou gestos de perplexidade. As falas, durante o enredo, tornam-se cambiáveis, denunciando a impotência das palavras que não conseguem jamais definir uma existência. Percebe-se muito do sentimento do absurdo, do mergulho clariceano em todas as seqüências - e, simbolicamente, deparamos com a dimensão de um "vazio" que agiganta as possibilidades interpretativas.

En Passant traz a sensação de frio e solidão, mas paradoxalmente faz rir e sugere acolhida. As personagens assumem uma atmosfera de antiguidade, em que os detalhes vermelhos do figurino - que tem a excelência autoral de Yuri Yamamoto - parecem ser a única marca de vitalidade. Essa energia sangüínea já incomoda e é desconfortável, porque induz à reflexão, à simbologia.

Existe ainda uma proposta do caricato, pela lembrança do traço de Tim Burton no desenho dos balanços, do poste e na própria imagem esguia e pálida da atriz Milena. Tal resgate, que nasce associado à memória de universos infantis (ainda que com seus instantes mórbidos, que o mesmo Tim Burton também apresenta), não parece se ajustar completamente aos personagens, envelhecidos com precocidade. Esse desajuste, da mesma forma, traz desconforto. Talvez o maior componente metafórico da peça seja o cachecol vermelho, absurdamente longo, que inicialmente pertence ao personagem masculino, mas aos poucos vai servindo de elo, manipulado também pela figura da mulher. As dobraduras e os enlaces assumem discretas coreografias, pulsando em silêncio enquanto as cenas se recortam entre black-outs.

Os personagens evoluem, assim enlaçados, como dois lados de uma mesma personalidade, que ocasionalmente se monta, reconhecida em espelho. É o que acontece no beijo, trocado não porque se trata de um casal em cena, um homem e uma mulher que se tornam íntimos. O beijo é muito mais uma relação de reflexo - os lábios se unem como se uniriam as mãos, as palmas coladas na superfície da imagem narcísica. As duas figuras, de passagem, instabilizam-se, como instável é o tempo, contado somente por madrugadas, em alternâncias de luz: outro desconforto.

O cachecol, como símbolo, transforma-se na própria malha do discurso, na tessitura das palavras; é o que resta na praça ausente, quando tudo termina. Como uma estátua que se erguiria em homenagem aos dois personagens, o cachecol é o que fica - e sua lã é o conforto, o aconchego, afinal. Não é à toa que na estréia de En Passant cada pessoa da platéia recebeu um mini-cachecol vermelho, que alguns fizeram de pulseira, enquanto outros amarraram no cabelo... Os fios da arte, os mistérios de Ariadne estavam todos lá, em labirintos de silêncio. Só quem não se incomodou foi que deixou de perceber.